ARTIGOS A GESTÃO DAS POPULAÇÕES DE COELHO-BRAVO NA PENÍNSULA IBÉRICA

 

A gestão das populações de Coelho-bravo na Península Ibérica

 

A gestão de coelho-bravo na Península Ibérica tem como objectivo o aumento da produtividade das populações da espécie, quer con fins conservacionistas quer com fins cinegéticos. Em ambos casos a correcta gestão deste lagomorfo deve seguir um plano que começa com a Monitorização das populações, seguida do controlo da pressão cinegética e, depois, da gestão do habitat, e só então deve ser considerada a criação em semi-cativeiro e, por fim, as acções de repovoamento.

 

Catarina Ferreira (IREC-UCLM & CIBIO-UP; This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it )

 

 

Na Península Ibérica, ao contrário do que acontece noutras regiões do mundo, as populações de coelho-bravo são geridas tipicamente no sentido de minimizar o impacto das elevadas mortalidades juvenil e adulta (causadas pelas doenças virais, predação, etc.) e de aumentar a produtividade da população (diminuída pela fragmentação dos habitats). No entanto, o conhecimento (principalmente científico) subjacente à correcta aplicação destas medidas não é, com frequência, muito profundo. De uma forma geral, este é um problema que os investigadores na Península Ibérica têm tentado suprimir, para prevenir o uso indiscriminado de algumas técnicas de gestão menos vantajosas para a conservação da biodiversidade e aumentar a sua eficácia na espécie-alvo, o coelho-bravo.

 

A monitorização das populações

O estabelecimento de um programa de monitorização a longo-prazo, e a grande escala, da abundância e tendências populacionais do coelho-bravo na Península Ibérica é fundamental. Esta tem sido uma das quimeras de alguns investigadores ibéricos, uma vez que é urgente a definição e uso de metodologias estandardizadas, de que os programas implementados até ao momento carecem, para que forneçam informação fidedigna sobre a extensão e as causas da diminuição do coelho ao nível da Península. Neste contexto, o cenário ideal seria a implementação de uma rede ibérica de monitorização de coelho-bravo (censos realizados em intervalos de 3 a 5 anos usando uma metodologia acordada entre os dois países) com base numa partilha, entre Portugal e Espanha, dos recursos e da informação produzida por esses censos.

 

Fig. 1 - Complexo de tocas de coelho-bravo  (Autor: Catarina Ferreira)

 

Em geral, estudos realizados tanto em Portugal como em Espanha apontam para a existência de incongruências nas estimativas das tendências populacionais de coelho-bravo obtidas a partir das estatísticas de caça, quando comparadas, no mesmo período, com os dados obtidos a partir de indícios de presença da espécie no campo. Isto implica que, de momento, a recolha de dados de campo constitui o método mais adequado e fidedigno para monitorizar a abundância e distribuição de coelho-bravo na Península Ibérica. Neste contexto, e à luz do “Programa de recuperação do coelho-bravo” (PRECOB; Despacho nº 296/2007, de 8 de Janeiro), criado pelo governo Português em 2007, foi estabelecida uma rede de monitorização de coelho-bravo em Portugal, designada INCOB, que tem como objectivo a recolha estandardizada de informação sobre parâmetros populacionais de coelho em áreas onde a espécie tem um papel ecológico relevante (por exemplo, em territórios de lince-ibérico). A metodologia adoptada baseia-se numa amostragem estratificada de quatro transectos lineares fixos com 250 metros de comprimento distribuídos em quadrículas UTM 2x2 Km. Ao longo destes transectos, são contabilizados todos os indícios da presença de coelho (sobretudo latrinas) pelo menos uma vez por ano (mas idealmente duas vezes, no final da primavera e outono). Apesar deste método poder ser aplicado, de uma maneira geral, a todo o território português, os esforços têm sido concentrados, de momento, nas áreas potenciais para futura reintrodução de lince-ibérico. Em Espanha, ainda não existe um programa nacional oficial de monitorização de coelho-bravo, apesar de se estarem a realizar esforços nesse sentido. Por exemplo, a SECEM (Sociedade Espanhola para a Conservação e o Estudo dos Mamíferos; http://www.secem.es/) encontra-se, actualmente, a desenhar um programa de monitorização de coelho-bravo, que se espera que utilize uma metodologia comparável com a de Portugal.

 

 

A regulação da pressão cinegética

Actualmente, não existe quase nenhum sítio da Península ibérica que não possa ser explorado por algum tipo de caça. Acresce o facto de que, em Portugal, existem cerca de 300.000 caçadores (em Espanha cerca de 1 milhão), o que torna a actividade cinegética num importante sector de investimento com receitas consideráveis a nível nacional (365 milhões € todos os anos, segundo dados oficiais). Portanto, uma das formas mais imediatas e intuitivas de gerir as populações de coelho-bravo é através da gestão cinegética.

Esta gestão pode passar, por exemplo, pelo ajuste da pressão cinegética (número de dias de caça, número de caçadores, imposição de moratórias) e das quotas de abate (número de coelhos caçados por jornada de caça). Segundo alguns autores, estes ajustes são já realizados pelos caçadores, de forma voluntária e por iniciativa própria, com resultados positivos para as populações de coelho. Contudo, esta relação (recuperação do coelho/baixa pressão cinegética) nem sempre é positiva, já que em algumas áreas da Península onde se deixou de caçar há algum tempo, como é o caso de algumas áreas protegidas, a abundância de coelhos é extremamente baixa, o que sugere que a proibição da caça não é, por si só, suficiente para garantir a recuperação das populações desta espécie. A preservação do coelho nestes locais estará ligada à aplicação de técnicas de gestão cinegética, como a gestão do habitat, controlo de predadores, etc., facto que explica porque razão, muitas vezes, o coelho é mais abundante em zonas de caça intensiva do que em áreas protegidas, como se observa recorrentemente, tanto em Portugal como em Espanha. Por este motivo, alguns investigadores defendem que a densidade de coelho-bravo deveria ser, neste momento, um dos indicadores a ser levado em conta pelos decisores políticos para a definição de áreas de conservação prioritária. Esta questão levanta-se principalmente porque, por um lado, fora destas zonas de caça as abundâncias de coelho são pouco promissoras para suportar futuras populações de linces reintroduzidos, e, por outro, se as melhores condições de alimentação para o lince estão localizadas em zonas de caça (onde se realiza, por exemplo, controlo de predadores), haverá um risco de mortalidade acrescido para estes animais. A conservação deste felino requer, assim, a dedicação de esforços no sentido de aumentar a densidade de coelhos dentro das áreas protegidas, onde o controlo de predadores está restringido.

 

Fig. 2 - Placa assinalando a entrada numa Zona de Caça em Espanha (Autor: Zona Caza, www.zonacaza.com)

 

Por outro lado, alguns autores têm sugerido que a actual época de caça ao coelho na Península Ibérica (em termos laxos, de Outubro a Dezembro) não é óptima para conservar as populações desta presa. Esta época venatória tem permanecido inalterada desde, pelo menos, a primeira metade do século XX, numa altura em que as densidades de coelho eram muito superiores, tendo provavelmente sido definida com a intenção de controlar as pragas de coelhos que causavam prejuízos económicos consideráveis à agricultura. Assim, uma alteração do período correspondente à época de caça ao coelho, do final do outono/inverno para final da primavera, optimizaria, por um lado, a extracção e favoreceria, globalmente, o estatuto das populações de coelho. Esta visão não é, contudo, partilhada por toda a comunidade científica, já que alguns investigadores sugerem que existem riscos reais de que os limites de uma exploração sustentável possam ser ultrapassados sem serem percebidos.

 

 

O controlo da predação e dos predadores

Eliminar predadores, sem uma lógica de gestão, pode introduzir desequilíbrios potencialmente irreversíveis nos ecossistemas. Por este motivo, uma das formas menos agressivas de controlar os predadores é de forma indirecta, controlando a predação. Isto pode ser feito melhorando a qualidade do habitat para as espécies presa, nomeadamente refúgio e alimento, eliminando os restos de caça e focos de alimentação artificiais, controlando directamente gatos e cães assilvestrados, e mantendo uma comunidade de predadores diversa.

Ainda assim, o controlo directo (eliminação) dos predadores é uma das ferramentas de gestão mais utilizadas na Península Ibérica pelos caçadores. De uma maneira geral, o seu objectivo é controlar as populações sobreabundantes de predadores cinegéticos, como a raposa ou o sacarrabos, para diminuir a mortalidade por predação das espécies presa (como o coelho). Existem vários métodos para o efeito, tendo este tema sido já objecto de um artigo específico disponível neste portal.

 

 

A gestão do habitat

Em geral, as técnicas de gestão do habitat usadas para recuperar as populações de coelho-bravo na Península Ibérica são consideradas eficazes, tanto por caçadores (e gestores de caça) como pela comunidade científica, apesar dos seus resultados serem normalmente evidentes a médio- e longo-prazo. O objectivo destas medidas é aumentar a capacidade de carga do meio, através do incremento da disponibilidade dos recursos ecológicos básicos para o coelho-bravo. A gestão do habitat é, portanto, uma das medidas basilares da recuperação do coelho-bravo nos ecossistemas mediterrâneos. Gerir o habitat para coelho-bravo implica perceber, em primeiro lugar, que factores relacionados com o habitat estão a condicionar a persistência e expansão da espécie num determinado local. Identificados esses factores, as principais técnicas consistem em:

1. Casos em que o alimento é limitante (zonas de mato denso e contínuo): criar zonas de alimentação, através da instalação de pastagens com misturas de leguminosas e gramíneas, cultivos de cereais e/ou abertura de clareiras para crescimento de gramíneas espontâneas (gestão do coberto arbustivo). Uma alternativa pode ser a alimentação suplementar através da instalação de comedouros em pontos estratégicos.

 

Fig. 3 - Comedouro para coelho-bravo (Autor: Catarina Ferreira)

 

2. Casos em que o refúgio é limitante (zonas de cultivo extenso): construção de abrigos artificiais, existindo diversos tipos, desde o vulgar acúmulo de ramas e troncos a tocas de plástico com sistemas de galerias elaborados (Mayoral) e um misto de tocas artificiais (base de palletes de madeira, tubos de PVC, etc.) cobertas com materiais naturais (ramos, terra, pedras, ...).

3. Casos em que a água é limitante: colocação de bebedouros para fauna.

Curiosamente, a maioria dos caçadores considera, ainda assim, que outras técnicas (como os repovoamentos e o controlo de predadores) são mais eficazes na recuperação do coelho-bravo, o que revela uma preferência pelo uso destas técnicas e sugere a necessidade de afinar os protocolos de gestão de habitat, de modo a torná-los mais eficazes a curto-prazo.

 

 

Os repovoamentos e o potencial para a criação do coelho-bravo em semi-cativeiro

Nos últimos anos, os repovoamentos com coelho-bravo no sudoeste da Europa foram responsáveis pela circulação anual de meio milhão de coelhos provenientes de populações naturais. No entanto, a maior parte destas acções falha, registando-se uma alta mortalidade dos coelhos trasladados. Isto deve-se a um conjunto de factores, nomeadamente o stress e o impacto de um novo ambiente, condições de transporte, predação, etc. Apesar de estarem documentadas algumas experiências no campo bem-sucedidas, a transferência do conhecimento científico para os gestores de caça ainda não foi totalmente conseguida. Assim, alguns autores sugerem que é possível aumentar a sobrevivência dos coelhos transladados (até 60–70%, 2 meses após a sua libertação), seleccionando os indivíduos que estão em melhores condições e implementando um rigoroso plano de gestão do habitat e de algumas espécies não-alvo, antes e depois de realizar o repovoamento. Por outro lado, foi recentemente demonstrado no sul de Espanha que o confinamento dos coelhos transladados em cercados de aclimatação durante 6 dias era suficiente para aumentar substancialmente a sua sobrevivência. Os repovoamentos implicam, ainda assim, um investimento económico elevado e, por isso, prossegue a procura de alternativas menos dispendiosas e igualmente eficazes.

 

Fig. 4 - Cercado de criação de coelho-bravo (Autor: IBERCUN, ibercun.blogspot.com)

 

O estabelecimento de cercados de criação de coelho-bravo em semi-cativeiro tem-se tornado, assim, uma alternativa viável e amplamente usada nos programas de recuperação de coelho-bravo nos últimos anos. O objectivo destas estruturas é a “produção” de coelhos geneticamente puros e saudáveis que possam ser libertados no meio selvagem usando técnicas de “solta branda” (cercados de aclimatação). Esta técnica melhora a capacidade de adaptação dos coelhos ao novo ambiente, diminuindo as perdas por stress e predação. Por este motivo, constituem a técnica mais adequada para garantir o fornecimento constante de alimento em territórios de lince-ibérico, tal como confirmado pelos resultados de projectos de conservação implementados na província de Córdova (sul de Espanha) e na Reserva Biológica de Doñana.

 

 

O controlo das doenças virais

Actualmente, tanto a Mixomatose como a Doença Hemorrágica Viral (DHV) são consideradas endémicas das populações de coelho-bravo, já que a maioria dos coelhos em estado selvagem apresenta uma elevada seroprevalência de anticorpos contra ambos os vírus. A técnica mais frequente de controlo do impacto destas doenças é a das campanhas de vacinação, que consistem na vacinação parentérica dos indivíduos susceptíveis. Existem vários métodos para o efeito, tendo este tema sido já objecto de um artigo específico disponível neste portal. De realçar que, em Maio de 2011, foi abandonado o projecto de desenvolvimento de uma vacina recombinante contra os vírus da Mixomatose e da DHV (designada ISPANVAC), financiado por um consórcio de entidades públicas Espanholas (nomeadamente a Real Federação de Caça Espanhola), por não se ter podido confirmar que a transmissibilidade da imunização entre coelhos vacinados e não-vacinados podia dar-se com doses baixas da vacina, a característica que era considerada a sua principal vantagem (notícia sobre o tema neste portal). Desta forma, a implementação de uma rede de vigilância sanitária corresponde, provavelmente, à melhor alternativa, de momento, para monitorizar e gerir o impacto e a evolução das doenças virais sobre as populações ibéricas de coelho-bravo.

 

 

Resumindo…

Independentemente da motivação do projecto (fins conservacionistas e/ou cinegéticos), uma gestão bem sucedida das populações de coelho-bravo, numa determinada zona (zona de intervenção), tem de assentar numa sequência lógica de etapas, passo por passo, como a que se sugere a seguir:

1. Monitorização: a recolha de dados sistemáticos sobre a abundância e distribuição do coelho na zona de intervenção é fundamental para uma boa planificação da gestão a realizar; sem ela, a aplicação das restantes medidas pode ver-se comprometida pela impossibilidade de uma intervenção atempada.

2. Pressão cinegética: se a zona de intervenção incluir uma zona de caça, os primeiros passos devem abranger o ajuste das quotas de abate (ou a instauração de moratórias se for necessário) e a cooperação com investidores, gestores de caça e caçadores.

3. Gestão do habitat: independentemente da zona de intervenção estar ou não dentro de uma zona de caça, dever-se-á realizar sempre uma análise da viabilidade/adequabilidade do habitat para o coelho, para perceber até que ponto factores como a disponibilidade de refúgio, água e alimento, podem estar a limitar as populações de coelho-bravo no local e agir em conformidade.

4. Criação em semi-cativeiro: as experiências desta natureza realizadas até ao momento têm produzido resultados bastante promissores, constituindo alternativas sustentáveis aos meros repovoamentos e promovendo, assim, o estabelecimento a longo-prazo de populações de coelho viáveis. Existe algum conhecimento científico sobre as especificidades destas infra-estruturas, estando previsto, na maior parte dos casos, que o investimento aplicado nesta medida pode ser amortizado em poucos anos.

5. Repovoamentos: a aplicação desta técnica é redundante se nenhuma das medidas referidas anteriormente tiver sido aplicada. Sem eliminar (ou pelo menos minimizar) os factores que limitam as populações de coelho-bravo na zona de intervenção (normalmente identificados após monitorização), nomeadamente aqueles que estão relacionados com actividades humanas (como a caça), o reforço da população com novos indivíduos será ineficaz e representará, apenas, um sumidouro de recursos. Ainda assim, um repovoamento bem planeado baseado em protocolos de “solta branda”, combinado com uma boa gestão do habitat e monitorização pode ser a chave para recuperar as populações de coelho em algumas zonas e talvez até constituir a única forma de garantir a presença desta espécie a uma grande escala a longo-prazo.

 

 

Bibliografia Recomendada

Angulo, E. & Villafuerte, R. (2003). Modelling hunting strategies for the conservation of wild rabbit populations. Biological Conservation, 115: 291-301.

Beja, P.; Gordinho, L.; Reino, L.; Loureiro, F.; Santos-Reis, M. & Borralho, R. (2009). Predator abundance in relation to small game management in southern Portugal: conservation implications. European Journal of Wildlife Research, 55: 227-238.

Delibes-Mateos, M.; Ferreras, P. & Villafuerte, R. (2009). Rabbit (Oryctolagus cuniculus) abundance and protected areas in central-southern Spain: why they do not match? European Journal of Wildlife Research, 55: 65-69.

Ferreira, C. & Alves, P.C. (2006). Gestão de populações de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus algirus). Federação Alentejana de Caçadores (Eds.).

Ferreira, C. & Delibes-Mateos, M. (2010). Wild rabbit management in the Iberian Peninsula: state of the art and future perspectives for Iberian lynx conservation. Wildlife Biology in Practice, 6(3): 48-66.