ARTIGOS O PAPEL DOS ZOOS NA REINTRODUÇÃO DE ANIMAIS NA NATUREZA: MITO OU REALIDADE?

O papel dos Zoos na reintrodução de animais na natureza: mito ou realidade?

 

 

Faz-se aqui uma análise da contribuição dos Jardins Zoológicos para a Conservação das espécies de animais selvagens ameaçadas através da prática da reintrodução, analisando as suas origens e as críticas que lhe são mais frequentemente dirigidas.

 

Lucília Tibério - Bióloga do Jardim Zoológico de Lisboa

 

 

A possibilidade de reintrodução de animais nascidos e/ou criados sob cuidados humanos é um dos principais argumentos apontados, actualmente, pelos Zoos, para justificarem a sua linha de actividade. A conservação de espécies ameaçadas e dos seus habitats, bem como a sensibilização e educação ambiental das várias centenas de milhões de visitantes anuais das colecções zoológicas em todo o mundo – pelo menos 600 milhões de entradas por ano nos Zoos associados da World Association of Zoos and Aquariums (WAZA) – são consideradas, por muitos Zoos actuais, como muito mais do que uma consequência espontânea de um agradável dia de lazer nas suas instalações zoológicas, acessíveis hoje em dia a pessoas de quase todos os meios socioeconómicos e raízes culturais.

 

A conservação da natureza, a educação ambiental e a investigação científica são identificadas por muitos dos Zoos de hoje com os pilares da sua declaração de missão, sendo nestas áreas que investem uma grande parte dos seus recursos humanos e financeiros, especialmente no caso das organizações zoológicas que coordenam o seu trabalho com o das agências de conservação da natureza, como a International Union for Conservation of Nature (IUCN), através de associações de Zoos e Aquários, tais como a European Association of Zoos and Aquaria (EAZA) ou a Association of Zoos and Aquariums (AZA), para além da já mencionada WAZA.

 

De facto, se dermos uma rápida vista de olhos sobre os projectos actuais de conservação da WAZA ou consultarmos a extensa lista de 163 projectos de conservação desenvolvidos pela WAZA, desde 2009, poderemos constatar que um grande número dos mesmos visa a reintrodução de espécies ameaçadas no seu habitat natural e/ou iniciativas de educação ambiental direccionadas para as comunidades locais da área de distribuição destas espécies.

 

Mas será a reintrodução, na natureza, de animais nascidos e criados em Zoos realmente exequível e, neste caso, será também válida e eficaz? E em que circunstâncias?

 

A reintrodução de animais já vem de longe

 

A prática da libertação de animais capturados em meio selvagem, ou nascidos em cativeiro, numa área onde a espécie tenha declinado ou desaparecido, enquanto medida potencialmente relevante para a conservação, tem angariado a aceitação geral da comunidade científica – por exemplo, a reprodução em cativeiro é considerada uma ferramenta de importância crítica para a desejada recuperação das populações selvagens do felino mais ameaçado do mundo, o Lince-ibérico (Lynx pardinus), em Espanha e Portugal.

 

 

Fig. 1 - CNRLI - Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (Silves, Algarve)

 

Um projecto de reintrodução pode envolver: (a) a translocação de animais capturados em meio selvagem para outras áreas geográficas com habitat adequado, de preferência dentro da área de distribuição histórica da espécie, ou (b) a libertação de animais nascidos em cativeiro e/ou capturados na natureza e criados ou mantidos sob cuidados humanos durante algum tempo, podendo estes últimos ser capturados enquanto crias, juvenis ou adultos, e eventualmente provenientes de apreensão alfandegária durante as actividades de controle do tráfico ilegal de espécies selvagens. Estes animais podem ser eventualmente reintroduzidos na natureza após um processo adequado de reabilitação e na ausência de patologias potencialmente transmissíveis às populações animais locais.

 

Se olharmos com atenção para os dados do passado, poderemos afirmar que a reintrodução de animais nascidos e/ou criados sob cuidados humanos já percorreu um longo caminho, principalmente desde o início da segunda metade do século XX. Poderíamos mencionar, por exemplo, o processo lento, difícil e controverso da recuperação do Bisonte-europeu (Bison bonasus), na Europa de Leste, ou os esforços conjugados de conservação realizados por várias organizações zoológicas dos EUA e da Europa, com vista à preservação do habitat e reintrodução dos Micos-leões (Leontopithecus sp.), na floresta atlântica brasileira. A recuperação bem sucedida das populações selvagens dos anteriormente quase extintos Falcão-das-maurícias (Falco punctatus) e Pombo-das-maurícias (Nesoenas mayeri) – apesar de a sobrevivência deste último ainda ser completamente dependente de apoio humano – são apenas mais dois exemplos a seguir. Neste caso, entre outras instituições, é de ressalvar o trabalho intenso da Durrell Wildlife Conservation Trust, que, além de ser uma fundação, é um dos parques zoológicos mais reconhecidos mundialmente pelos seus esforços de longa data na conservação in situ, i.e., das populações selvagens e dos seus habitats.

 

Fig. 2 - Falcão das Maurícias (Autor: jmittermeier)

 

Todavia, muitas das tentativas iniciais de reintrodução de animais provenientes de cativeiro tiveram uma taxa de sucesso muito reduzida. Estes falhanços, combinados com o conhecimento geral de que a reintrodução de animais provenientes de cativeiro ainda tem muitas restrições óbvias , têm gerado alguma controvérsia em torno do tema, que é assim frequentemente criticado de forma negativa, tanto por académicos das áreas da biologia e da conservação como por muitos conservacionistas em todo o mundo.

 

 

Críticas à reintrodução de animais provenientes de Zoos

 

Entre as críticas mais contundentes ao papel dos Zoos na reintrodução de animais na natureza, poderemos apontar as seguintes:

 

Os animais selvagens mantidos sob cuidados humanos, especialmente após várias gerações, sofrem uma diminuição ou mesmo supressão dos seus traços “selvagens”, e eventualmente demonstram as características deletérias da depressão de consanguinidade, esta última resultante do “efeito de garrafa” potencialmente verificado nas pequenas populações de animais que são normalmente mantidas e reproduzidas em cativeiro.

 

A primeira parte da argumentação é claramente falaciosa, porque muitos dos traços físicos e comportamentais necessários à sobrevivência em meio selvagem são herdados geneticamente e não podem ser simplesmente “reescritos” através da aquisição de características “domésticas” em cativeiro. Por outras palavras, imagine-se a selecção artificial de tigres com um repertório genético mais “adequado” à vida em cativeiro (maior docilidade, por hipótese) – a realidade é que nunca se conseguiriam apagar muitos dos seus traços “selvagens”, mesmo após um número muito elevado de gerações. As competências de caça dos gatos domésticos, que apesar da sua excelente cobertura de pêlo apreciam o conforto de um aquecedor no Inverno, podem ser uma imagem eloquente desta afirmação. Por outro lado, é verdade que alguns traços comportamentais importantes para a sobrevivência dos animais na natureza (especialmente no caso de muitos mamíferos e aves) têm de ser “aprendidos” durante a sua fase juvenil, seja através da interacção com um dos progenitores, ou ambos, ou ainda com todo o grupo social. Por exemplo, um leopardo “sabe” de forma inata que é um carnívoro, e até mesmo que é um predador, mas não conhece necessariamente as melhores estratégias de caça, as quais apreende através da observação da sua progenitora durante o período de desenvolvimento juvenil.

 

 

Fig. 3 - Fêmea de leopardo caça impala

 

É pelo que foi exposto que a possibilidade de realização de comportamentos naturais pelos animais, na expressão potencial máxima do seu repertório comportamental inato, é precisamente um dos maiores objectivos dos programas de enriquecimento ambiental que são desenvolvidos diariamente pelos Zoos em todo o mundo. Através de vários estímulos de carácter físico (o tipo e disposição dos elementos físicos na instalação, como os troncos, etc.), sensorial ou alimentar (por exemplo, o uso de odores de outros animais ou a forma de apresentação dos alimentos), entre outros, pretende-se proporcionar oportunidades aos animais para realizarem os seus comportamentos naturais em cativeiro como se estivessem realmente a viver em meio selvagem. Para os animais, isto poderá significar serem incluídos num grupo social adequado ou serem estimulados a procurarem alimento usando as suas competências específicas.

 

A segunda parte da argumentação poderá realmente tornar-se verdade caso os programas de reprodução em cativeiro desenvolvidos pelos Zoos não sejam suficientemente bem geridos, ao invés do que seria de esperar de acordo com os padrões éticos e normativos da WAZA e de outras associações de Zoos em todo o mundo, nomeadamente, através (a) do estabelecimento da população sob cuidados humanos assente num número de animais fundadores selvagens com uma diversidade genética suficientemente elevada, (b) da manutenção de uma base de dados de pedigree e demográficos suficientemente completa (a qual é denominada Studbook da espécie), pelo menos desde o estabelecimento do programa de reprodução em cativeiro, (c) de uma boa análise genética e demográfica da população de forma a produzirem-se as melhores recomendações para transferências de animais entre os Zoos envolvidos no programa de reprodução, (d) e de uma dimensão suficiente da metapopulação ex situ – considerada como tal por as suas várias unidades reprodutoras se encontrarem distribuídas entre vários Zoos, mas cuja gestão é feita de forma global e interligada – de forma a que a população como um todo seja viável a longo prazo, mantendo uma demografia estável e um nível elevado de diversidade genética. Estes são, de facto, os objectivos dos programas de reprodução em cativeiro conduzidos por Zoos responsáveis – e têm sido atingidos de forma eficaz para um número crescente de espécies.

 

Neste contexto, pode ser relevante considerar que a depressão de consanguinidade é também um sério problema em muitas populações de animais selvagens extremamente fragmentadas pela destruição e/ou ocupação humana do seu habitat e/ou pela caça excessiva. É o caso da população selvagem global de Tigre-da-sibéria (Panthera tigris altaica), segundo um artigo científico publicado recentemente na revista Mammalian Biology: apesar da população selvagem actual somar cerca de 500 indivíduos, a população efectiva (que constitui uma medida da diversidade genética populacional) é inferior a 14 animais. Assim sendo, pelo menos no seu maior potencial, algumas populações de animais mantidas sob cuidados humanos podem ser, ou tornar-se, mais representativas em termos genéticos do que algumas populações selvagens da mesma espécie.

 

 

Fig. 4 - Fêmea de Tigre-da-Sibéria no Zoo de Nuremberga (Autor: Calliopejen)

 

De acordo com a argumentação exposta, a afirmação de que os programas rigorosos de reprodução em cativeiro conduzidos pelos Zoos podem constituir um depósito genético de segurança para a reintrodução de animais sempre que tal se torne necessário e viável pode reunir defensores. E esta foi, de facto, uma das conclusões da mais recente Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-10) das Nações Unidas, em Nagoya, no Japão, em Outubro de 2010.

 

Os animais selvagens mantidos em cativeiro adquirem um elevado grau de imprinting humano, em consequência do seu contacto frequente com os tratadores e o público, especialmente no caso dos animais das apresentações.

 

Este é um argumento sólido, em muitos aspectos. Primeiro, a presença humana é de facto incontornável, uma vez que os animais em cativeiro necessitam obviamente de cuidados diários de higiene e alimentação, para além de cuidados médico-veterinários regulares. Contudo, em qualquer momento, há sempre um determinado número de animais da colecção zoológica que podem ser indicados como a opção genética mais adequada para uma reintrodução na natureza. Assim, nas normas de maneio dos Zoos, recomenda-se uma distância emocional razoável aos seus cuidadores. Além disso, muitos Zoos aconselham os seus visitantes a evitarem os contactos directos com outros animais da colecção zoológica que não os animais de quinta e das apresentações, não só por razões sanitárias e de segurança, mas também para evitarem o imprinting comportamental em animais que eventualmente poderão ter de ser reintroduzidos na natureza. É claro que estas recomendações não são tão frequentemente respeitadas quanto deveriam, talvez por causa da nossa natureza altamente interactiva enquanto primatas, e especialmente porque os mesmos Zoos promovem um grande número de actividades de interacção entre o público e os animais, gerando deste modo uma imagem relativamente confusa para os visitantes.

 

Claro que poderíamos contrapor que muitos animais selvagens habitantes dos parques e reservas de vida selvagem em todo mundo estão hoje em dia mais expostos ao contacto público directo, e às possíveis consequências letais para esses animais, do que os animais mantidos nalgumas instalações de semicativeiro criadas no âmbito de programas de reintrodução para adaptação dos indivíduos à sua libertação no meio selvagem.

 

Em segundo lugar, a reversão do imprinting comportamental é obviamente muito difícil, se chegarmos a considerá-la realmente possível. No entanto, um programa de reintrodução bem planeado e desenvolvido considera a existência de um período pré-libertação para aclimatação e adaptação comportamental dos animais à sua futura vida em meio selvagem, com a libertação preferencial dos descendentes criados pelos seus progenitores, eventualmente dentro de um grupo social adequado mantido na instalação de pré-libertação.

 

E a experiência tem vindo a revelar-nos um número elevado de iniciativas de reintrodução consideradas positivas, desde a libertação (quase) directa de animais na natureza (i.e. através de métodos de hard release, ou seja, sem um período de adaptação pré-libertação) – como é o caso da reintrodução da Cabra-alpina (Capra ibex) na Áustria – até aos períodos prolongados de condicionamento pré-libertação (denominados soft release), incluindo muitas tentativas e aprendizagens sucessivas, como tem sido o caso da reintrodução longa e difícil dos já mencionados Micos-leões (Leontopithecus sp.), no Brasil.

 

A reintrodução de animais provenientes de cativeiro pode ser considerada uma prática não humanitária sob a perspectiva do bem-estar animal.

 

Este é um argumento muito interessante, tendo em conta as muitas vozes críticas que se erguem contra os Zoos e a sua prática de manterem animais selvagens e os seus descendentes em cativeiro, restringindo, desta forma, a sua possibilidade de viverem livremente na natureza.

 

 

Fig. 5 - Libertação de condor em cercado de adaptação pré-reintrodução (Autor: Pearson Education)

 

Os animais selvagens provenientes de cativeiro que forem reintroduzidos irão efectivamente ser submetidos a um grau mais intenso de stress quando em liberdade – causado, por exemplo, pelo desconforto físico associado à fome, sede, doença ou predação, etc. – do que terão os seus conspecíficos mantidos sob cuidados humanos em Zoos eticamente responsáveis, tratando-se assim de uma contradição à Declaração Universal de Bem-estar Animal. Mas esta discussão iria definitivamente conduzir-nos para fora do âmbito deste artigo.

 

O número de animais provenientes de cativeiro que foram reintroduzidos até hoje é muito baixo comparativamente ao número total de animais que é mantido e reproduzido nos Zoos actuais de todo o mundo.

 

Segundo um estudo realizado por Beck et al. para o Grupo de Especialistas em Reintrodução da Comissão de Sobrevivência de Espécies da World Conservation Union (IUCN/SSC), de um total de cerca de 145 projectos que foram responsáveis pela libertação na natureza de animais provenientes de cativeiro, com vista ao restabelecimento ou reforço das populações selvagens, e que foram conduzidos durante a maior parte do século XX, foram reintroduzidos mais de 70 000 mamíferos, aves e répteis, e os Zoos estiveram envolvidos em pelo menos 59% das 129 reintroduções cuja origem dos animais pode ser comprovada. Por outras palavras, não é um grande número comparativamente à enorme quantidade de animais mantidos actualmente sob cuidados humanos nos Zoos de todo o mundo.

 

Contudo, uma perspectiva mais recente publicada pelo Grupo de Especialistas em Reintrodução da IUCN/SSC é mais encorajadora e provavelmente mais representativa da tendência actual na prática de reintrodução de animais selvagens, muito possivelmente graças ao contínuo desenvolvimento no conhecimento científico e técnico que tem acompanhado a viragem do século. Será ainda pertinente acrescentar que muitos dos resultados dos estudos científicos conduzidos nos Zoos, nos últimos anos, nas áreas do comportamento animal e da medicina-veterinária, têm sido utilizados como ferramentas cruciais para o correcto planeamento, execução e monitorização pós-libertação das reintroduções de animais.

 

Apesar do que foi dito, a verdade nua e crua é que a maioria dos animais mantidos e reproduzidos nos Zoos não será provavelmente reintroduzida na natureza. Isto poderia ser assim por uma boa razão, ou seja, porque não fora de facto necessário. No entanto, apesar da argumentação de que os programas de reprodução sob cuidados humanos conduzidos pelos Zoos visam a gestão cooperativa de populações viáveis a longo prazo, com um grau elevado de diversidade genética, e cujos animais manifestam condições físicas e comportamentais adequadas para um potencial projecto de reintrodução na natureza, o destino mais comum dos animais mantidos e reproduzidos nos programas de reprodução em cativeiro geridos pelos Zoos não é a reintrodução na natureza, mas antes o fornecimento de animais para os vários Zoos associados, tendo em conta o facto de que a captura de animais selvagens já não é aceite, quer em termos éticos como legais, na maioria das situações. Assim sendo, tal como muitos Zoos irão argumentar, os seus animais vivem como «embaixadores da natureza», contribuindo para a preservação dos seus conspecíficos em liberdade, entre outras formas, através dos programas educativos e das apresentações de animais realizadas para os visitantes. E, neste contexto, outro argumento assinalável dos Zoos é a importância da criação de uma ligação emocional forte intencionalmente promovida entre as pessoas e os animais, a qual pelo menos em teoria conduzirá a uma atitude mais pró-activa em relação à sua conservação na natureza. Curioso é o facto de esta ligação homem-animal dever ser precisamente evitada para benefício da reintrodução, não existindo uma saída simples para este circuito. É por isso que muitos Zoos estão a começar a compreender e a considerar a necessidade de realizarem programas de reprodução específicos para a reintrodução de animais na natureza, que terão de ser geridos de forma mais restrita do que os programas de reprodução genéricos, no que se refere ao isolamento dos animais do público, à maior preocupação com as suas necessidades ambientais e características comportamentais, à maior proximidade do local de libertação, etc.

 

 

Fig. 6 - Instalação de hipopótamos no Sedgwick County Zoo (Wichita, EUA)(Autor: Alamy)

 

 

Por último, mas não em último lugar em termos de importância, poderemos ainda acrescentar algumas restrições genéricas à reintrodução de animais provenientes de cativeiro (tenham estes nascido sob cuidados humanos ou não), nomeadamente: (a) carência de financiamento para o investimento a longo prazo que é necessário ao processo de reintrodução – e neste ponto poderíamos assinalar, por exemplo, a enorme importância das campanhas anuais de conservação da EAZA, realizadas desde 2000, na angariação centenas de milhares de euros em fundos canalizáveis para programas de conservação in situ, incluindo projectos de reintrodução; (b) falta de conhecimento científico suficiente para o apoio correcto das várias etapas do processo de reintrodução – infelizmente, este é um factor importante no caso de alguns grupos taxonómicos muito ameaçados de extinção, como é o caso, por exemplo, de muitos répteis e anfíbios; (c) apoio fraco das autoridades e/ou das populações locais – e este é provavelmente um dos factores mais importantes a considerar antes de se proceder a qualquer projecto de reintrodução, porque caso não exista apoio local para a preservação de uma determinada espécie animal selvagem (seja em consequência da existência de conflitos homem-animal, de capturas ilegais para o tráfico de espécies selvagens, de crenças supersticiosas, ou outros factores) não existe também forma de garantir que esta população seja viável a longo prazo. É por esta razão que as actividades de educação ambiental a nível local e o reforço das leis locais de protecção da natureza e do ambiente são cruciais para o sucesso de qualquer projecto de conservação in situ; por fim, e provavelmente o maior impedimento à reintrodução de animais na natureza, para além do risco da propagação de doenças, (d) não existe simplesmente habitat adequado disponível para as necessidades de uma população de animais selvagens auto-sustentável a longo prazo depois da ocupação e utilização pelo Homem dos recursos ambientais disponíveis num determinado local.

 

 

Uma centelha de esperança

A reintrodução de animais provenientes de Zoos é afinal válida e eficaz? Em síntese, poderemos afirmar que os Zoos têm um excelente potencial para a manutenção de programas de reprodução em cativeiro bem geridos e capazes de suprirem animais selvagens saudáveis em termos genéticos e comportamentais, para reintrodução na natureza. Podemos também dizer que os acontecimentos mais recentes nos têm demonstrado a possibilidade de reintrodução de animais provenientes de Zoos na natureza de forma pelo menos parcialmente bem sucedida em mais do que apenas algumas situações. Poderemos inclusive arriscar-nos a afirmar que, para algumas espécies extremamente ameaçadas (e nem sempre carismáticas!), o forte empenho de alguns Zoos em todo o mundo tem sido um dos seus maiores pilares contra a extinção, desde a segunda metade do século XX e especialmente nos tempos mais recentes.

 

Fig. 7 - Mico-leão-dourado - um exemplo de reintrodução de animais nascidos ao abrigo de Programas de Reprodução em Cativeiro em Zoos bem-sucedido  (Autor: WAZA)

 

Assim, apesar de todas as boas razões que se possam apontar contra a transladação de animais selvagens e/ou a libertação na natureza de animais nascidos e/ou mantidos cativeiro com vista a restabelecer ou reforçar as populações selvagens, o certo é que a biodiversidade mundial tem vindo a diminuir a uma rapidez extremamente elevada e a apropriação dos recursos naturais pelo Homem tem crescido cada vez mais de forma descontrolada, pelo que simplesmente já poderá ser tarde para nos darmos ao luxo de deitar fora as oportunidades que os Zoos responsáveis podem oferecer à conservação.

 

 

Nota: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente da responsabilidade da autora.

 

 

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