ARTIGOS O CONTROLO DE PREDADORES E A CONSERVAÇÃO DO LINCE-IBÉRICO

 

 


O Controlo de Predadores e a Conservação do Lince-ibérico


O controlo de predadores é uma ferramenta utilizada pelos gestores de áreas de caça que pode, no entanto, ter impactos negativos graves no que toca às espécies ameaçadas como é o caso do lince-ibérico. Actualmente já existem alternativas investindo-se no controlo da predação e não dos predadores.

 

Francisco Díaz-Ruiz (Biólogo)

 

 

Perspectiva Histórica

Desde tempos imemoriais que o Homem compete directamente com os animais com quem, devido às suas características ecológicas, partilha os recursos. No caso dos predadores, a competição pelas espécies de caça, e mais tarde, no que toca ao gado, levaram o Homem a persegui-los directamente, de forma contínua até ao presente. Na Península Ibérica, esta perseguição foi especialmente intensa em meados do século XX, quando se criaram, tanto em Espanha como em Portugal, juntas especializadas paras o efeito (vulgarmente conhecidas como Juntas de Eliminação de Animais Daninhos), que, financiadas pelo poder político, tinham como objectivo o extermínio das espécies animais que se consideravam prejudiciais para os interesses humanos.

 

 

Figura 1 - Cepos ou armadilhas de ferros utilizadas no passado para o controlo de predadores

 

O exercício, de forma indiscriminada, desta actividade já foi reconhecido como uma das causas de extinção de várias espécies de predadores em vastas áreas de Espanha durante a segunda metade do séx. XX, de que o lince-ibérico (Lynx pardinus) é um exemplo, tendo-se capturado 153 indivíduos entre 1954-1962. No entanto, o controlo de predadores deixou de ser uma actividade financiada por dinheiros públicos para se tornar uma actividade restringida através de legislação.

 

 

O controlo de predadores na actualidade

Tanto em Espanha como em Portugal, o controlo de predadores é considerado por muitos caçadores e gestores de zonas de caça de espécies de caça menor como uma ferramenta de gestão essencial, sendo o seu uso comum e generalizado. Esta actividade encontra-se regulamentada, sendo permitido o controlo de algumas espécies oportunistas consideradas abundantes, nomeadamente a raposa (Vulpes vulpes), o sacarrabos (Herpestes ichneumon) (esta espécie apenas em Portugal), ou a pega-rabuda (Pica pica), sendo permitida também a captura de cães e gatos assilvestrados. Os sistemas de controlo utilizados actualmente baseiam-se na eliminação dos predadores recorrendo a métodos que vão desde a caça com arma de fogo, à captura do animal vivo através de vários sistemas, seguida de abate. Neste último caso (captura do animal vivo), apenas são permitidos métodos selectivos, que não firam os animais capturados e que permitam a libertação de indivíduos que não pertençam às espécies-alvo. Os métodos legais utilizados são sobretudo armadilhas de jaula e laços com travão (Figura 2), sendo totalmente interdito o uso de métodos não-selectivos como cepos, laços sem travão e iscos envenenados.

 

Figura 2 - Armadilha de laço com travão

 

No entanto, os métodos de controlo autorizados por lei possibilitam também a captura de espécies protegidas, de modo que a libertação destes animais é da responsabilidade de quem está a realizar a actividade. Estudos recentes realizados na Península Ibérica demonstraram que alguns dos métodos actualmente permitidos não são selectivos. É o caso das armadilhas de jaula usadas para a captura de raposas que capturam mais animais de outras espécies. Estes resultados tornam evidente o perigo que estas armadilhas constituem para muitas espécies protegidas, em caso de má utilização, já que em alguns casos os animais são eliminados de forma activa (através de abate), ou passiva (abandonados na armadilha onde acabam por morrer). Os trabalhos que avaliaram os laços com travão mostram que estes apresentam uma maior selectividade dos que as armadilhas de jaula, mas continuam a capturar espécies protegidas. Para além do mais, sabe-se que o uso deste método pode infligir danos aos animais capturados, que podem influir negativamente na sua sobrevivência. A maioria destes estudos realizou-se em zonas onde não existem linces, pelo que não se dispõe de dados actuais sobre a captura de linces através do recurso a estes métodos.

 

 

Consequências do controlo de predadores para o Lince-ibérico

Embora as principais ameaças identificadas no que diz respeito à conservação do lince-ibérico sejam, principalmente, a escassez de coelhos – a sua presa principal, e a destruição, alteração e fragmentação do seu habitat, o matagal mediterrânico, há outras actividades humanas que contribuíram de forma directa para o declínio da espécie. Com efeito, na década de 80, 49% das 1258 dos linces mortos por causas não-naturais, resultaram da utilização de iscos e laços, 30% da caça furtiva, e 5% de acidentes rodoviários. É evidente que o uso de métodos ilegais, (cepos e laços sem travão), em conjunto com a caça furtiva, foram as principais causas de mortalidade não-natural da espécie durante o período citado. Os dados tornam óbvio o perigo que uma má utilização dos métodos actualmente permitidos (jaulas e laços) constitui para o lince, já que este é susceptível de ser capturado tanto em armadilhas de jaula como em laços sem travão. No entanto, os dados obtidos entre 2000 e 2003, mostram que 13 das 18 mortes não-naturais registadas deveram-se a atropelamento, 4 à armadilhagem ilegal e uma por disparo, sendo provável que a importância relativa dos atropelamentos seja agora muito maior do que em décadas passadas, como mostram os dados divulgados pelo Ministério do Ambiente (Ministerio del Medio Ambiente) de Espanha para o período compreendido entre 1982 e 2004. (Figura 3).

 

Figura 3 - Causas conhecidas de mortalidade de lince-ibérico na comarca de Doñana (Espanha) entre 1982-2004 (Ministerio de Medio Ambiente-Parque Nacional de Doñana)

 

Seja como for, a precária situação do lince-ibérico faz com que o controlo de predadores através dos métodos actualmente permitidos em zonas onde a espécie ocorre seja totalmente desaconselhável, já que nenhum destes métodos apresenta uma selectividade que assegure a não-captura da espécie, e, como já foi demonstrado noutros trabalhos, o lince-ibérico pode ser capturado por qualquer dos métodos que se utilizam para o controlo de predadores.

 

 

O lince-ibérico como “controlador” de outros predadores

Já foi provado que o lince é capaz de matar outros carnívoros mais pequenos como raposas, sacarrabos, genetas (Genetta genetta) e gatos assilvestrados, chegando inclusive a matar alguns animais de maior tamanho como cães. Este comportamento de predação e a exclusão de outros carnívoros de menor tamanho, resultam numa redução da abundância dos predadores generalistas nas zonas em que o lince está presente. Desta forma, o lince contribui para manter estas espécies em densidades baixas. Para além de reduzir ou manter baixas a abundância de outros predadores, a presença do lince pode chegar a ser vantajosa para as populações de presas, nomeadamente a sua presa principal, o coelho, ao eliminar outros predadores que os consomem, como é o caso do sacarrabos. O resultado é que, em zonas onde existe lince, o coelho só necessita de suportar a predação do lince (entre os mamíferos carnívoros), enquanto que noutras zonas onde o felino não está presente sofre a pressão de predação que todos os carnívoros mais pequenos exercem, traduzindo-se numa pressão de predação maior (Figura 4).

Figura 4 - Esquema do efeito da presença ou ausência de lince-ibérico sobre a abundância dos predadores generalistas de menor tamanho e das presas

 

 

Controlo da predação: perspectivas de futuro

Actualmente, estão em curso em Espanha, alguns trabalhos que avaliam novos métodos de captura originários dos Estados Unidos para o controlo de canídeos (Collarum e Belisle). Até agora, estes métodos demonstraram ser muito selectivos na captura de raposas e, inclusive, de alguns cães assilvestrados. No entanto, independentemente da utilização ou não destes métodos na Península Ibérica, o objectivo principal do controlo de predadores é melhorar a situação das populações de presas. Neste sentido, cada vez se defende mais o controlo da predação, em detrimento do controlo directo de predadores, ou seja, dificultar a captura das presas aos predadores, em vez de os eliminar de forma directa. No entanto, ainda há muito trabalho a fazer, sendo necessárias avaliações científico-técnicas da eficácia destas novas medidas de gestão da predação. Estes trabalhos permitirão melhorar os métodos facilitando o seu uso por parte dos caçadores e gestores de áreas de caça. De seguida são enumerados alguns destes novos métodos alternativos ao controlo de predadores, cuja eficácia já foi comprovada:

Melhoria de habitat: habitats mais bem conservados resultam num menor risco de predação para as presas.

Fomento da recuperação de grandes predadores como o lince, o lobo ou as grandes rapinas, que funcionam como “controladores naturais” dos predadores generalistas de menor tamanho.

Diminuição das fontes de alimentação artificiais: impedir o acesso a locais de deposição de resíduos, lixeiras ou estrumeiras através do seu encerramento, bem como evitar deixar no campo restos de caçadas.

Evitar na medida do possível, a libertação em massa de espécies cinegéticas reproduzidas em cativeiro, como por exemplo a perdiz-comum (Alectoris rufa), já que constituem alimento fácil para as raposas.

Suplementação no que diz respeito ao alimento para as presas: pode contribuir para que as espécies-presa melhorem a sua condição física, tornando-se menos susceptíveis de ser capturadas pelos predadores (Figura 5).

 

Figura 5 - Suplementação alimentar para espécies-presa - Culturas para a Fauna

 

 

Bibliografia

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Guzmán, J.N., García, F.J., Garrote, G., Pérez de Ayala, R. & Iglesias, C. (2005) El lince ibérico Lynx pardinus en España y Portugal. Organismo Autónomo de Parques Nacionales. Ministerio de Medio Ambiente. Madrid.

Ferreras, P. (2008) Funciones de la depredación en los sistemas naturales. Tipos de depredadores. Relaciones depredador-presa. Interacciones entre depredadores. En: Especialista en control de depredadores. Ed: FEDENCA-Escuela Española de Caza. 2008.

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