ASPECTOS DA REPRODUÇÃO NO LINCE-IBÉRICO

 

Aspectos da Reprodução no Lince-ibérico

 

Neste artigo faz-se uma introdução ao tema da Reprodução do lince-ibérico, abordado aspectos vários que vão desde os comportamentos de corte que precedem o acasalamento, às várias etapas do desenvolvimento das crias até que abandonam a progenitora e iniciam a procura de um território próprio que é condição essencial para que possam reproduzir-se, complementando o conhecimento obtido em estudos no meio silvestre e em cativeiro.

 

Filipa Alves

 

Introdução

O conhecimento atual da Reprodução do lince-ibérico é resultado de estudos realizados em dois contextos muito distintos – o meio silvestre e o cativeiro. Dada a sua distribuição limitada, a sua baixa abundância e o seu carácter esquivo, o lince-ibérico não é uma espécie fácil de estudar na Natureza. Deste modo, a manutenção em cativeiro da espécie no âmbito dos esforços para a reproduzir tendo como objectivo a reintrodução, veio contribuir de forma muito significativa para o que sabe sobre ela, tanto de uma forma geral, como no que diz respeito a temas específicos como a Reprodução. Monitorizados 24 horas por dia durante anos seguidos, foi possível assistir de perto a múltiplos episódios da vida dos animais e, em particular da sua vida reprodutiva, que seria muito difícil de observar na Natureza, como é o caso dos rituais de acasalamento ou do momento do parto. Do mesmo modo, foi possível, através da realização de exames físicos, acompanhar de perto as alterações que o organismo dos linces sofre, por exemplo, durante o desenvolvimento das crias. No entanto, o conhecimento obtido do estudo dos animais em cativeiro tem que ser sempre contextualizado, uma vez que pode estar a ser influenciado pelas características ambientais que são, forçosamente, distintas das que os animais experimentam na Natureza.

 

 

O território de reprodução

O lince-ibérico é um carnívoro solitário e territorial. À semelhança do que acontece com as outras espécies do género Lynx, os machos e as fêmeas deste felino endémico da Península Ibérica apenas contactam na época do acasalamento. Nesta altura, o macho estabelece contacto com a fêmea/as fêmeas que possuem um território que se sobrepõe parcialmente com o seu. A área partilhada por uma fêmea e um macho designa-se território de reprodução.

Um estudo levado a cabo com a população de linces de Doñana revela que o território de reprodução não difere do restante território de cada lince, mas é muito distinto de qualquer área do mesmo tamanho escolhida aleatoriamente na sua envolvente. Com efeito, verificou-se que o território de reprodução se caracteriza por apresentar uma densidade 15 vezes maior de zonas de fronteira (ecótonos) entre manchas de matos e pastagens do que as áreas que não de inscrevem dentro dos limites das áreas utilizadas por um lince. Por outro lado, os territórios de reprodução apresentam uma cobertura média de mato 3 vezes superior, e de mato denso 1,5 vezes superior à de outras áreas da mesma dimensão nas suas imediações, que também possuem menos pastagens. Globalmente, parece que o critério utilizado por um indivíduo para decidir se dada área é incluída ou não no seu território de reprodução é a densidade de ecótonos de mato-pastagem, e que o tamanho do território de reprodução depende directamente de factores como a área coberta por mato e por ecótonos mato-pastagem. Esta selecção de habitat – escolha prioritária de zonas de ecótono mato-pastagem e mato denso relaciona-se com as necessidades dos indivíduos. Com efeito, as zonas de ecótono mato-pastagem constituem as zonas de alimentação de coelho, dando ao lince acesso ao alimento. Por outro lado, as áreas de mato denso são especialmente importantes na segunda fase do período de desenvolvimento das crias durante o qual, como veremos mais à frente, a progenitora as usa como tocas secundárias.

 

 

O acasalamento

No caso do lince-ibérico os acasalamentos podem ocorrer entre Janeiro e Maio, na altura em que as fêmeas entram no cio, algo que pode acontecer várias vezes numa mesma época do ano, mas ocorre sobretudo nos dois primeiros meses do ciclo anual.

Os aspectos comportamentais relacionados com o acasalamento eram, até recentemente, desconhecidos. A reprodução em cativeiro apresentou-se como uma oportunidade única para colmatar esta lacuna no conhecimento científico. Seguidos de perto de “sol a sol” os linces do Programa de Conservação Ex-situ da espécie revelaram pormenores da sua vida “íntima” que seriam muito difíceis de observar no meio silvestre.

 

Fig. 1 - Saliega e Enea - casal da Temporada Reprodutora de 2008-09 do Programa de Conservação Ex-situ

A monitorização dos linces nos centros de reprodução em cativeiro revelou que em Dezembro a frequência dos “miados” regista um aumento que é acompanhado por uma afincada marcação com urina do espaço, e do aumento do contacto entre macho e fêmea. Isto traduz-se na manutenção da proximidade, em comportamentos de jogo, de reconhecimento olfactivo mútuo (com ênfase nas zonas genito-urinarias) e no roçar das patilhas, barbas, pescoço ou flancos, que conduz à impregnação de cada um com o odor do parceiro. A certa altura, após este período inicial de corte que pode ter uma duração variável, a fêmea aumenta a frequência dos seus “miados”, o que faz com que o macho comece a segui-la de perto, mie em resposta e marque intensamente a zona circundante. A fêmea torna-se então receptiva e têm início as cópulas, que são breves (1-2 minutos de duração), frequentes (ocorrem de dia e noite a cada 2,5 horas), e que se prolongam por até 3 dias (veja um vídeo do acasalamento de Adelfa e Daman, Temporada Reprodutora de 2010-12 do Programa de Conservação Ex-situ aqui). No meio silvestre os machos acasalam sucessivamente com a fêmea/fêmeas que ocorrem dentro do raio de acção que é o seu território – em Doñana o lince revelou ser uma espécie monogâmica mas com tendência para a poliginia (sistema em que cada macho acasala com mais do que uma fêmea). Quando o acasalamento é bem-sucedido a fêmea fica prenhe, iniciando-se o período de gestação.

 

 

A gestação, a escolha da toca parideira ou toca natal e o parto

A gestação no lince-ibérico dura 63-73 dias, e perto do final a fêmea procura um local seguro onde dar à luz, espaço em que permanece nos dias que antecedem esse momento. De acordo com um estudo da população silvestre de Doñana, os partos têm tendência para concentrar-se no fim de Março/princípio de Abril (veja um vídeo do parto de Saliega na Temporada Reprodutora de 2011-12 aqui)

O mesmo estudo em Doñana revelou que as futuras mães são muito selectivas no que diz respeito às características dos locais onde vão parir. Normalmente elegem como toca parideira ou toca natal uma árvore antiga, como um tronco de árvore de grande diâmetro - geralmente um sobreiro, Quercus suber, ou freixo, Fraxinus angustifolia – com cavidades amplas, numa zona com elevada densidade de arbustos e árvores, e próxima do  centro do seu território. A razão da selecção invariável de troncos ocos como local do parto não é clara. No entanto, é sugerido que o facto de ser uma cavidade, ou seja uma área reservada com acesso limitado, confere-lhe um carácter protector em relação aos predadores que é potenciado pela densa massa de arbustos da área envolvente. Mas os especialistas vão mais além sugerindo que as cavidades nos troncos constituem tocas parideiras ideais na medida em que, ao serem espaços limitados são capazes de conservar uma temperatura através da concentração do calor corporal. Com efeito, esta capacidade de não sofrer grandes oscilações térmicas como as que caracterizam a alternância entre noite e dia, é fulcral visto que, quando nascem, as crias têm uma capacidade de regulação da temperatura corporal muito limitada. Por outro lado, o facto de o espaço ser pequeno, permite que as crias estejam sempre em contacto com a mãe, sendo facilmente reunidas junto da progenitora.

 

Fig. 2 - Fêmea Aura com a sua ninhada (Temporada Reprodutora de 2006-07)

no interior de um toca artificial usada em cativeiro simulando uma toca natural na cavidade de um sobreiro antigo

 

As ninhadas de lince-ibérico são constituídas, em média, por 3 crias, embora esse número possa variar entre 1 e 5. À nascença, as crias de lince, não se movimentam, têm os olhos fechados, as orelhas dobradas e coladas à cabeça, e o corpo coberto por pêlos finos, curtos e macios.

Em cativeiro, a progenitora não sai da toca durante os primeiros dias de vida das crias, nem sequer para comer ou beber (veja um vídeo de Castañuela com a sua ninhada nos seus primeiros dias de vida - Temporada Reprodutora de 2011-12 do Programa de Conservação Ex-situ aqui).

 

 

O Desenvolvimento das crias

Um outro estudo realizado em Doñana revelou que aos 12 dias de idade as crias já têm os olhos semi-abertos, mas ainda não vêem, e movem-se pouco. No entanto, aos 18 dias os pequenos linces já se movem mais e tentam caminhar, emitem alguns sons e têm os dentes de leite a nascer. Com 27-28 dias, as crias já apresentam os olhos abertos e andam perfeitamente, sendo capazes de procurar abrigo junto de algum pedaço de cortiça no chão ou numa toca de coelho próxima, mas continuam a ter as orelhas dobradas, apesar de todos os dentes de leite já terem rompido. Com esta idade, verificou-se também, através da análise de dejectos, que os linces já consomem carne de presas capturadas pela progenitora.

 

 

Do início do consumo de carne à caça de presas vivas

Embora não tenha sido possível determinar o momento em que termina o aleitamento materno nos estudos no meio silvestre, em cativeiro as crias ainda mamam, pelo menos uma vez por dia aos 4 meses de idade. Neste contexto, o primeiro contacto com a presa começa aos 20-35 dias de idade quando a progenitora traz a presa que caçou para o interior da toca, e as crias pouco mais fazem do que cheirá-la (veja um vídeo do primeiro contacto da ninhada de Barraca com uma presa por ela caçada - Temporada Reprodutora de 2011-12 do Programa de Conservação Ex-situ aqui). Aos 51-56 dias as crias começam a “brincar” com os coelhos capturados pela mãe e aos 55-65 dias, ingerem a sua carne pela primeira vez e iniciam o processo de desmame.

 

Fig. 3 - Primeiros contactos entre as crias de lince e a presa-viva no âmbito do Programa de Conservação Ex-situ

 

Os comportamentos precursores da caça, ou seja, os jogos de perseguição e ataque da presa viva, que é depois morta pela progenitora, começam aos 52-58 dias e o fim do processo de aprendizagem da caça, o momento em que os pequenos linces se tornam verdadeiros caçadores, ao adquirirem a capacidade de perseguir, capturar e matar coelhos, acontece aos 72-92 dias.

 

O abandono da toca natal, e a utilização de tocas secundárias

Um dos estudos já mencionados realizado em Doñana revelou que, entre os 17 e 20 dias de idade das crias, a progenitora transfere a ninhada para uma toca secundária a menos de 150 m da toca parideira. Aparentemente, esta mudança está relacionada com a necessidade, por parte das crias, de terem mais espaço para desenvolverem as suas capacidades motoras o que justifica a selecção de uma toca com características bastante distintas da toca parideira – as tocas secundárias são normalmente massas arbustivas que conferem protecção dos predadores mas que, ao mesmo tempo, são espaços menos confinados.

 

Fig. 4 - Saliega transfere cria para uma nova toca -

Temporada Reprodutora de 2004-05 do Programa de Conservação Ex-situ

 

A toca para onde é transferida a ninhada quando os animais começam a locomover-se é apenas utilizada durante uma média 7/8 dias, após os quais a ninhada é transferida para outra toca com as mesmas características, processo que se repete até que as crias atingem os 56-66 dias de idade, altura em que começam a acompanhar a progenitora. Isto significa que cada fêmea utiliza, nas primeiras fases do desenvolvimento das crias 1 toca parideira e 5/6 tocas secundárias. A mudança de toca parece ser motivada por uma necessidade de controlo do desenvolvimento de parasitas externos, de redução do risco de atracção de predadores através do odor libertado e de manter a proximidade das áreas de alimentação que a fêmea explora no momento.

O uso das tocas parece terminar quando as crias atingem cerca de 2 meses de idade, altura em que deixam de ser tão vulneráveis à doença e aos predadores. É então que se inicia o seu processo de aprendizagem dos comportamentos que lhes permitirão sobreviver por si mesmas quando se tornarem independentes.

 

 

A agressividade entre irmãos

Durante o seu período de desenvolvimento os membros da ninhada interagem muito entre si, participando em jogos de luta que são importantes para que desenvolvam as suas capacidades motoras. No entanto, as crias atravessam um período de agressividade extrema que pode começar entre 34 e os 66 dias de idade e ocorrem sobretudo no período que vai da 6ª à 8ª semana (segundo os estudos em cativeiro), em que lutam de forma muito violenta, episódios que podem terminar com a morte de um dos membros da ninhada (veja um vídeo de uma luta entre crias da ninhada de Boj, Temporada Reprodutora de 2011-12 do Programa de Conservação Ex-situ, aqui). Estas lutas, que foram descritas inicialmente no lince-eurasiático (Lynx lynx) , são supervisionadas pela progenitora, que procura a todo o custo evitar a escalada da violência separando as crias, mas nem sempre é bem-sucedida. No âmbito do Programa de Conservação Ex-situ do Lince-ibérico, e depois da primeira perda de uma cria neste tipo de lutas, optou-se por intervir prontamente, separando as crias, nos casos em que se observava que a mãe não estava a controlar a situação.

 

Fig. 5 - Luta entre Freso e Fresca, duas crias que nasceram na

Temporada Reprodutora de 2008-09 do Programa de Conservação Ex-situ

 

No entanto, nas temporadas reprodutoras mais recentes, foi decidido apenas interferir em casos de risco extremo, visto ter-se verificado que é importante que os animais resolvam eles mesmos os conflitos, algo que acontece em 1-2 dias, para que essa fase de grande agressividade termine. Caso contrário, prolongar-se-á durante semanas ou mesmo meses.

 

 

A dispersão e o início da actividade reprodutora

Estudos realizados em Doñana revelaram que 90% dos linces abandonam o território materno, a maioria entre os 12 e 24 meses de idade, iniciando a dispersão entre Janeiro e Junho. Nessa altura iniciam a procura de um território próprio, que é condição essencial para que possam reproduzir-se. A taxa de mortalidade dos jovens linces é elevada e tem, normalmente causas antropogénicas, entre as quais se destaca caça furtiva, sendo que apenas metade dos animais encontra e consegue estabelecer-se num território. A dispersão dura, em média, 6 meses e a idade em que os linces adquirem pela primeira vez um território individual (24-25 meses para as fêmeas e 24-29 meses para os machos) parece coincidir com o momento em que se tornam aptos a reproduzir-se.

 

 

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